| Cabaret Stravaganza |
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Dando continuidade à sua pesquisa de teatro expandido, Os Satyros pretendem, através de “Cabaret Stravaganza” aprofundar as investigações nesse sentido.
O teatro expandido, para falar do humano, terá de ir além dele. O ator e o espectador expandido serão aqueles que, além dos seus próprios corpos, carregarão suas próteses cibernéticas, de celulares a operações cirúrgicas, de identidades físicas a identidades digitais. O ator do novo teatro se expandirá em apetrechos tecnológicos que completarão sua performance cênica. O conceito de atuação se ampliará. O corpo físico do ator será sua realidade carnal original e suas próteses incorporadas, tornando-se plataforma a partir da qual o ator expandido realizará suas investigações reais e virtuais. Ao mesmo tempo, o ator expandido dialogará com um espectador que não estará ali apenas com seu corpo, mas com todas as suas próteses cibernéticas, de celulares a identidades virtuais. Deste encontro de ciborgues, surge esta pesquisa teatral. Pesquisas de grandes multinacionais de computação já indicam que as crianças de hoje sabem brincar melhor com videogames do que andar de bicicleta. Aliás, essas crianças apresentam uma dificuldade muito maior do que gerações anteriores em distinguir a diferença entre o mundo real e o virtual. A utilização dos celulares por esses jovens encontra-se, portanto, em um novo lugar do humano, que também é um outro lugar teatral: eles não são um signo teatral tradicional como um adereço; ao contrário, fazem parte da própria identidade social destes jovens, participando do cotidiano do ator-adolescente e de sua forma de se comunicar com o mundo. São próteses tecnológicas de uma humanidade cibernética. Os antropólogos ciborgues, como Amber Case, diriam que vivemos na condição ciborgue toda vez que agimos através de aparatos tecnológicos como celulares, carros e laptops. Tanto os espectadores quanto os artistas do novo teatro estarão, portanto, marcados pelo espírito ciborgue. A relação tecnológica da nossa espécie com a natureza marca o processo civilizatório, nos levando a aprender a manipular o fogo e posteriormente a criar os foguetes. A partir dos anos de 1990 especialmente, com a democratização do acesso a muitos aparatos eletrônicos, o advento da internet, o avanço das pesquisas biotecnológicas e da robótica, passamos a um novo patamar da expansão tecnocientífica da humanidade.
Por outro lado, as interferências tanto em nossos próprios corpos quanto na ordem natural estão realizando transformações inéditas. O sequenciamento do genoma humano, as cirurgias plásticas e as pesquisas desenvolvidas por grandes corporações com alimentos transgênicos, visando a alimentação em massa de bilhões de seres humanos, estão nos levando a redefinir a própria relação com a natureza. E a flora e a fauna criadas por Deus em sete dias hoje só continuam a resistir vivas e intactas em áreas de preservação ambiental. Se a construção da civilização sempre partiu do embate contra a natureza caótica e poderosa, hoje essa mesma natureza, mais do que dominada, passa a ser também construída pela própria humanidade. Assumimos o papel antes reservado ao divino. O teatro, manifestação superestrutural de tal sistema, vive uma relação intensa e contraditória com ele, ora negando suas influências, mantendo-se fiel à sua história e à preservação de ideais anteriores de humanismo, ora incorporando os elementos deste novo tempo e antecipando tendências. Os temas e os potenciais instrumentais deste universo ultratecnológico estão aí para serem discutidos, incorporados, instrumentalizados, criticados, repensados. Cabe ao teatro descobrir as formas mais adequadas de o fazer. Um novo campo teatral começa a nascer, disposto a dialogar com todas as questões que a sociedade contemporânea traz. Fruto da sua época, mas ao mesmo tempo crítico da sua condição, este teatro não se furta do confronto com as imensas dificuldades atuais. A este novo campo teatral, um bebê recém-nascido ainda vulnerável, mas cheio de vitalidade eletrônica, denominaremos teatro expandido. Este novo teatro pertence ao tempo dos artistas e espectadores expandidos. Curioso sobre os avanços tecnológicos, crítico da desumanização, atento ao surgimento de tantas questões éticas, morais e sociais que o momento atual traz, ele avançará, basicamente, a partir de cinco eixos: o temático, o político, o tecnocientífico, o físico-espacial e o formal. Tais eixos se interpenetram e influenciam mutuamente, trazendo em si problematizações sobre as quais o fazer teatral vai se defrontar nas próximas décadas. O projeto performativo “Lou-Leo” será realizado pelo artista transexual Leo Moreira Sá, ator e iluminador do Satyros, e consiste no processo de transformação cirúrgica (mastectomia) de seu corpo, adaptando sua realidade corpórea a sua identidade sexual. Para a realização do projeto será lançado um hotsite com todas as informações sobre a performance, incluindo depoimentos de médicos especialistas, da equipe do espetáculo e do próprio artista. A performance só poderá ocorrer através do sistema de crowdfunding. Crowdfunding (financiamento colaborativo) consiste na captação de recursos para a realização de um projeto artístico através da internet. Os colaboradores poderão apoiar financeiramente a realização da performance através do site. Na estreia digital de “Cabaret Stravaganza”, os espectadores presentes física e/ou virtualmente poderão acompanhar o lançamento da cena do espetáculo que se refere ao projeto de financiamento colaborativo via internet para a cirurgia do transexual Léo Moreira Sá. Também ocorrerá um debate com o pesquisador de teatro contemporâneo Marcelo Denny, o psicanalista Sergio Zlotnic, o diretor do Satyros Rodolfo García Vázquez e um bate papo posterior com os artistas participantes do projeto em relação ao teatro expandido e aos temas do espetáculo “Cabaret Stravaganza”. Direção: Rodolfo García Vázquez Informações: (11) 3258.6345 A partir da ideia de que a humanidade se encontra em um momento de profundas transformações tecnológicas e científicas, o espetáculo busca discutir as implicações deste novo mundo tanto na nossa forma de viver e se relacionar com ele quanto nas próprias conseqüências que este momento implica para a compreensão da nova condição humana e, portanto, para o próprio teatro. O espetáculo envolve a utilização de recursos multimídia, internet e telefonia e recupera características das "extravaganzas" vitorianas e dos cabarés alemães dos anos 20, com liberdade de formas e estilos, estruturas fragmentadas de cenas e elementos do burlesco, da pantomima, da revista e do show de variedades. A estreia física do espetáculo acontecerá no dia 27 de outubro, às 21 horas, no Espaço dos Satyros Um.
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