Crítica - Os Satyros Acertam na Tradução de Universo Sujo de Peça de Koltès
Montagem brasileira de "Roberto Zucco" traça retrato satírico e absurdo da sociedade, com elenco vigoroso

Cristiane Rieira - Crítica da Folha

Última peça escrita pelo francês Bernard-Marie Kolt??s (1948-1989), "Roberto Zucco" foi montada pela vez postumamente, em Berlim, em 1990.
 

A estreia na Alemanha não parece coincidência para um texto com o espírito revolucionário, a força poética e a soltura dramatúrgica de alguns autores daqueles país, como Goethe ou Büchner.

Inspirado no personagem real Roberto Succo, o serial killer Zucco tem uma trajetória que parece ecoar um Fausto ao insuflar paixão por onde passa, ou um Woyzeck, ao perambular por um mundo que lhe parece oco.

Contemporâneo, porém, Zucco não é vítima da sociedadenem muito menos seu agente. É apenas um "trem que descarrila", como diz sua mãe, solto em universo em que "todo mundo pode descarrilhar".

Na abertura, o anúncio da fuga da prisão introduz que trata-se do assassino de seu próprio pai. Zucco logo aparece na casa da mãe e a mata friamente. A partir daí, continuas às ocultas, sempre em escapada, cometendo crimes sem motivação consistente.

Este anti-herói continua sua travessia por pequenos quadros dramáticos, esvaziados de psicologia e cheios de lirismo, funcionando como emblema de seus tempos.

É a tradução de um universo sujo, com moral distorcida, no qual é preciso "fechar as escolas e aumentar os cemitérios", o maior desafio e surpreendente acerto desta montagem pelo diretor Rodolfo García Vázquez à frente de Os Satyros.

A escolha do ator Robson Catalunha para interpretar Zucco, com seus traços suaves e corpo mais frágil já desloca grande parte da agressividade para fora do protagonista. Com um elenco vigoroso de 20 atores, é inevitável que a tônica recaia no retrato satírico, às vezes absurdo da sociedade. 

O time de arte impressiona ao multiplicar o pequeno espaço de encenação com arquibancadas móveis e projeções em todas as paredes. O cenário de Marcelo Maffei e os vídeos de Luciana Ramin adensam o clima de violência urbana.

O entorno ruidoso acentua atrage´dia da solidão de Zucco, cuja alma melancólica revela a hipocrisia barulhenta ao seu redor. Aos poucos, ganha a dimensão de um herói mítico em poema épico, pois sua queda pode simbolizar a queda de toda humanidade.

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustrada - 11 de Setembro